Versão: Bíblia Livre (CC BY 3.0 BR)
Salmo 23
O SENHOR é meu pastor, nada me faltará.
O Salmo 23 é o salmo do “Senhor é meu pastor”: em seis versículos, Davi descreve Deus como pastor que guia e protege e como anfitrião que acolhe à mesa, mesmo diante do perigo.
Texto bíblico
1 O SENHOR é meu pastor, nada me faltará.
2 Ele me faz deitar em pastos verdes, e me leva a águas quietas.
3 Ele restaura minha alma, e me guia pelos caminhos da justiça por seu nome.
4 Ainda que eu venha a andar pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo; tua vara e teu cajado me consolam.
5 Tu preparas uma mesa diante de mim à vista de meus adversários; unges a minha cabeça com azeite, meu cálice transborda.
6 Certamente o bem e a bondade me seguirão todos os dias de minha vida; e habitarei na casa do SENHOR por muitos e muitos dias.
Texto original
v. 1: Mizmor leDavid. Adonai ro’i, lo echsar.
Versão simplificada
v. 1 O Senhor cuida de mim como um pastor cuida das ovelhas. Por isso não me falta o que é essencial.
v. 2–3 Ele me leva a lugares de descanso e de água tranquila. Renova minhas forças e me conduz pelo caminho certo, porque quer ser fiel ao que prometeu.
v. 4 Mesmo quando passo pelo vale mais escuro, não tenho medo, porque tu estás comigo. Tua vara e teu cajado me dão segurança.
v. 5 Tu me recebes como um anfitrião: preparas a mesa, me honras com óleo e o meu copo transborda, mesmo com inimigos por perto.
v. 6 O bem e o amor fiel de Deus vão me acompanhar a vida toda, e eu vou morar na casa do Senhor por muitos dias.
Contexto histórico
Autoria. O título hebraico diz mizmor leDavid, “salmo de Davi”. Antes de ser rei, Davi foi pastor de ovelhas em Belém (1 Samuel 16:11; 17:34–35), o que dá força à imagem.
A imagem do pastor. No antigo Oriente Próximo, reis eram chamados de “pastores” do povo. Dizer que “o Senhor é meu pastor” é dizer que quem governa e cuida da vida é Deus.
Gênero. É um salmo de confiança: não pede nada, apenas declara segurança em Deus. Fica entre o Salmo 22 (o grito de abandono) e o Salmo 24 (o Rei que entra no templo).
Explicação
O pastor (v. 1–4)
As ações são de quem cuida de ovelhas: fazer deitar em pastos verdes, levar a águas tranquilas, guiar pelos caminhos certos. A vara servia para defender o rebanho; o cajado, para conduzir e resgatar.
A virada do versículo 4
Até aqui o salmista fala sobre Deus (“ele”). No vale escuro, passa a falar com Deus: “porque tu estás comigo”. A presença vira diálogo justamente no momento mais difícil.
O anfitrião (v. 5–6)
A cena muda para um banquete. Ungir a cabeça com azeite era gesto de honra a um hóspede, e o cálice que transborda indica fartura. Pela regra da hospitalidade, quem estava à mesa ficava protegido, mesmo à vista dos adversários.
“Me seguirão”
O verbo hebraico radaf significa perseguir. O salmista inverte a imagem: não são os inimigos que o perseguem, são o bem e a bondade de Deus.
Leia também
Como cada tradição lê
Católica
Em Bíblias que seguem a numeração da Vulgata e da Septuaginta, este é o Salmo 22 (“Dominus regit me”). Padres da Igreja, como Cirilo de Jerusalém, leram a água, o óleo e a mesa como imagens do batismo, da crisma e da eucaristia, e por isso o salmo era cantado pelos recém-batizados. Hoje é muito usado nas missas de exéquias e como salmo responsorial.
Protestante
Leitores protestantes costumam ler o salmo à luz de João 10:11, em que Jesus diz “eu sou o bom pastor”. É um dos textos mais lidos em funerais e visitas a doentes. Charles Spurgeon o chamou de “a pérola dos salmos”.
Ortodoxa
Na tradição ortodoxa (numeração grega: Salmo 22), o salmo faz parte das orações de preparação para a Santa Comunhão, junto com os salmos 23 e 115 da Septuaginta. A “mesa preparada” é lida como a mesa eucarística.
Judaica
Em muitas comunidades judaicas, Mizmor leDavid é cantado na terceira refeição do Shabat (seudá shlishit) e recitado em funerais e visitas ao cemitério. A leitura judaica destaca Deus como pastor de Israel, imagem também usada em Ezequiel 34.
Acadêmica
Estudiosos discutem se o salmo tem uma imagem só (o pastor) ou duas (pastor e anfitrião). A expressão tsalmavet, tradicionalmente “sombra da morte”, pode ser lida também como “escuridão profunda”; traduções modernas às vezes trazem “vale escuro”. A data de composição é incerta.
Cada leitura é atribuída à tradição que a sustenta. O VersePath não escolhe um lado.
Para refletir
Repare na mudança do versículo 4: no lugar mais escuro, o salmista para de falar sobre Deus e começa a falar com ele. Em qual “vale” você está hoje, e o que mudaria se dissesse simplesmente: “tu estás comigo”?
Curiosidades
- Em hebraico, o primeiro versículo tem poucas palavras: Adonai ro’i, lo echsar.
- Nas Bíblias católicas antigas e na tradição ortodoxa, este salmo é o 22.
- A tradução “vale da sombra da morte” vem da leitura tradicional de tsalmavet e se fixou nas Bíblias clássicas em várias línguas.
- É o salmo mais buscado no Brasil, com centenas de milhares de buscas por mês.
Perguntas frequentes
Quem escreveu o Salmo 23?
O título atribui o salmo a Davi, que foi pastor de ovelhas antes de ser rei. A tradição judaica e a cristã mantêm essa atribuição.
O que significa “o Senhor é meu pastor”?
Que Deus guia, alimenta e protege a pessoa como um pastor faz com as ovelhas, e por isso nada essencial falta.
O que é o “vale da sombra da morte”?
É a imagem de um lugar muito escuro e perigoso. Pode ser a morte, mas também qualquer momento de grande sofrimento.
Por que o Salmo 23 é lido em funerais?
Porque fala de confiança diante da morte (“não temerei mal algum”) e termina com a esperança de habitar na casa do Senhor.
Por que em algumas Bíblias ele é o Salmo 22?
Porque a Septuaginta e a Vulgata numeram os salmos de outro jeito. Bíblias católicas atuais costumam mostrar “Salmo 23 (22)”.