Versão: Bíblia Livre (CC BY 3.0 BR)
Salmo 7
Senhor, meu Deus, em ti confio; salva-me de todos os que me perseguem, e livra-me.
O Salmo 7 é a oração de quem é acusado injustamente: “Senhor, meu Deus, em ti confio; salva-me de todos os que me perseguem”. Davi pede que Deus julgue a causa e termina em louvor ao “SENHOR, o Altíssimo”.
Texto bíblico
1 Senhor, meu Deus, em ti confio; salva-me de todos os que me perseguem, e livra-me.
2 Para que não rasguem minha alma como um leão, sendo despedaçada sem haver quem a livre.
3 Senhor, meu Deus, se eu fiz isto: se há perversidade em minhas mãos;
4 Se eu paguei com mal ao que tinha paz comigo (mas fiz escapar ao que me oprimia sem causa);
5 Então que o inimigo persiga a minha alma, e a alcance; e pise em terra a minha vida; e faça habitar minha honra no pó. (Selá)
6 Levanta-te, SENHOR, em tua ira; exalta-te pelos furores de meus opressores; e desperta para comigo; tu mandaste o juízo.
7 Então o ajuntamento de povos te rodeará; portanto volta a te elevar a ti mesmo sobre ele.
8 O SENHOR julgará aos povos; julga-me, SENHOR, conforme a minha justiça, e conforme a sinceridade que há em mim.
9 Que tenha fim a maldade dos maus; mas firma ao justo, tu, ó justo Deus, que provas os corações e os sentimentos.
10 Meu escudo pertence a Deus, que salva os corretos de coração.
11 Deus é um justo juiz; e um Deus que se ira todos os dias.
12 Ele afia a espada para aquele que não se arrepende; ele já armou e preparou seu arco.
13 E para ele já preparou armas mortais; suas flechas utilizará contra os perseguidores.
14 Eis que o injusto está com dores de perversidade; e está em trabalho de parto, e gerará mentiras.
15 Ele cavou um poço e o fez fundo; mas caiu na cova que ele próprio fez.
16 Seu trabalho se voltará contra sua própria cabeça; e sua violência descerá sobre o topo de sua cabeça.
17 Eu louvarei ao SENHOR conforme sua justiça; cantarei ao nome do SENHOR, o Altíssimo.
Texto original
Shiggayon leDavid… Adonai Elohai, becha chasiti; hoshi’eni mikol rodfai vehatsileni.
Versão simplificada
v. 1–2 Senhor, eu me refugio em ti. Livra-me de quem me persegue, antes que me despedacem como um leão.
v. 3–5 Se eu fiz o mal de que me acusam, se paguei o bem com o mal, então que o inimigo me alcance.
v. 6–9 Levanta-te, Senhor, e julga. Tu conheces os corações: põe fim à maldade e sustenta quem é justo.
v. 10–13 Deus é o meu escudo e um juiz justo. Quem não se arrepende encontra a justiça dele pela frente.
v. 14–16 O mal volta contra quem o planeja: quem cava a cova cai nela.
v. 17 Eu vou louvar ao Senhor, porque ele é justo.
Contexto histórico
O título. O cabeçalho hebraico chama o salmo de shiggayon, palavra de sentido incerto. Muitos a ligam ao verbo shagah, “vaguear”, e pensam num canto emocionado ou de ritmo irregular. Algumas traduções contam esse título como versículo 1 (é o caso da Louis Segond francesa), e a numeração delas fica uma unidade à frente.
Cuxe, o benjamita. Segundo o título, Davi cantou o salmo por causa das palavras de um certo Cuxe, da tribo de Benjamim, que não é identificado em outro lugar da Bíblia. Saul era benjamita, e também Simei, que amaldiçoou Davi durante a fuga diante de Absalão (2 Samuel 16). Por isso muitos leem o salmo no contexto das acusações vindas do lado de Saul.
Um juramento de inocência. Os versículos 3–5 têm a forma de um juramento: se eu fiz isto, então que o inimigo me alcance. Era um recurso jurídico do antigo Israel: quem não tinha testemunhas podia jurar diante de Deus, no santuário, e deixar a sentença com ele (compare 1 Reis 8:31–32).
Explicação
Refúgio antes da defesa
O salmo começa com confiança, não com argumentos: “em ti confio”. Só depois Davi apresenta sua causa. A imagem do leão (v. 2) mostra o tamanho da ameaça: sem Deus, a alma seria despedaçada “sem haver quem a livre”.
Se eu fiz isto
Nos versículos 3–5, o salmista não diz que é perfeito; diz que é inocente dessa acusação. Ele chega a pôr a própria vida em jogo: se for culpado, que o inimigo “pise em terra a minha vida”. É a coragem de quem tem a consciência limpa naquele ponto. O Salmo 27 também fala de falsas testemunhas que se levantam contra o salmista (v. 12).
O Deus que prova os corações
O versículo 9 pede o fim da maldade e o apoio ao justo, dirigindo-se ao “justo Deus, que provas os corações e os sentimentos”. No hebraico, a expressão é “corações e rins” (libot uchlayot): os rins eram vistos como a sede das emoções mais íntimas. O acusado não pede um tribunal humano, mas o olhar de quem conhece por dentro.
A cova de quem a cava
Os versículos 14–16 descrevem o mal como uma gravidez que só gera mentira, e depois como uma armadilha: “Ele cavou um poço e o fez fundo; mas caiu na cova que ele próprio fez.” A justiça de Deus aparece aqui também como consequência: o mal volta para quem o planeja. O salmo fecha em louvor ao “SENHOR, o Altíssimo”.
Como cada tradição lê
Católica
Na numeração da Vulgata, o Salmo 7 mantém o mesmo número. A tradição cristã leu nele a oração do justo perseguido, e Santo Agostinho o comenta nas suas Enarrationes in Psalmos. Para o leitor católico, o salmo ensina a confiar o julgamento a Deus e a examinar a própria consciência antes de pedir justiça.
Protestante
Muitos leitores evangélicos recorrem ao Salmo 7 em situações de calúnia e injustiça: em vez de se vingar, o salmista entrega a causa a Deus, como Paulo aconselha em Romanos 12:19. O versículo 10 resume essa confiança: “Meu escudo pertence a Deus, que salva os corretos de coração.”
Judaica
O Talmude pergunta quem seria esse Cuxe, o benjamita, e responde que se trata de Saul: assim como o cuxita se distingue pela cor da pele, Saul se distinguia pelas suas ações (Moed Katan 16b). Nessa leitura, o salmo é a resposta de Davi às perseguições do rei.
Acadêmica
A maioria dos comentaristas classifica o Salmo 7 como lamentação individual de um acusado, com um juramento de inocência (v. 3–5) semelhante ao de Jó 31. O hebraico tem passagens difíceis: nos versículos 12–13, o sujeito que afia a espada e prepara o arco pode ser Deus, como entendem a Bíblia Livre e a KJV, ou o próprio ímpio, cujas armas se voltariam contra ele (v. 15–16), como propõem alguns tradutores modernos.
Cada leitura é atribuída à tradição que a sustenta. O VersePath não escolhe um lado.
Para refletir
Ser acusado injustamente dói de um jeito particular. O salmista não esconde a angústia nem finge que nada aconteceu, mas também não faz justiça com as próprias mãos: entrega a causa a Deus e termina cantando. Existe hoje alguma situação que você precisa deixar nas mãos do juiz justo?
Curiosidades
- A palavra shiggayon, do título, aparece no plural (shigionot) no início da oração de Habacuque (Habacuque 3:1).
- O último versículo chama Deus de YHWH Elyon, “SENHOR, o Altíssimo”, título que já aparece em Gênesis 14, no encontro de Abraão com Melquisedeque.
- A imagem de quem cai na própria cova (v. 15) reaparece em Provérbios 26:27 e Eclesiastes 10:8, e virou ditado em várias línguas.
Perguntas frequentes
O que significa o Salmo 7?
É a oração de alguém acusado injustamente, que entrega a causa a Deus, o juiz justo, e confia que o mal se voltará contra quem o planejou.
Quem escreveu o Salmo 7 e em que contexto?
O título o atribui a Davi e o liga às palavras de Cuxe, um benjamita desconhecido. A tradição judaica identifica esse Cuxe com o rei Saul.
O que é Shiggaion?
É a palavra hebraica do título do salmo. O sentido é incerto; provavelmente indica um canto emocionado ou de ritmo irregular.
Quando rezar o Salmo 7?
Em momentos de calúnia, acusação injusta ou perseguição, para entregar a Deus a própria causa em vez de buscar vingança.